OLHAR DISCRETO NA POESIA    1

Cambaxirra   


Há dias que nascem com peso de chumbo
e gosto de azinhavre, 
prometendo dores nas costas,
falando de contas a pagar
e ameaças de fim do mundo.
Aí, a pequenina cambaxirra,
a mais humilde das avezinhas urbanas,
pousa na janela do quarto, toda serelepe,
de bem com a vida,
catando formigas, sementes,
sei lá o quê mais,
e, entre um pulinho e outro,
me olha assim, meio de lado,
e lança seu trinado alegre,
dobrado, triplicado,
inspirada como se fora 
um refinado canário belga
ou algum outro cantor de escol.
Parece me dizer: "-Desfaz essa cara de luto,
seu bobalhão de uma figa!...".
Então, esfrego os olhos, me espreguiço
investigo novamente o céu,
e percebo que as nuvens não são assim tão densas,
e que, naquele pedaço mais escuro,
pros lados da serra,
que há bem pouco prometia muita chuva,
agora já se vê um promissor pedacinho do azul. 


---2011© Franklin Magalhaes--------------------------------------

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