OLHAR DISCRETO NA POESIA    1

Vigília                (English)

Entrincheirado no conforto da calça de lã,
das botas de couro, da camisa rulê,
mergulho na poesia alheia
e tudo me aquece desta noite de junho:
a roupa, por fora; por dentro, a poesia.
A torneira pingando,
os cães ranzinzas se xingando ao longe,
o ronronar da geladeira,
a mulher, sensual, reclamando que vá deitar,
vêm a mim através de gostosa sensação de felicidade,
que me embala e conforta,
que me entorpece as pernas
e me leva a outra dimensão
como embriagado.
Flash Gordon sem naves e trajes espaciais
vagueio no espaço,
buscando o quasar
donde emana a poesia
que permeia o Universo.
No silêncio aparente da noite que dorme,
os pequenos ruídos,
resíduos de um dia animado,
me dizem que ainda estou no chão.
E eu sinto, Velho Poeta, meu irmão,
que este novo dia, que chega
com o cantar do galo,
com o motor do primeiro ônibus,
com este cheiro de orvalho,
vai ser perfeito.
E o sono me diz
que devo descansar, para estar em forma logo mais
e sair cultivando o amor e a amizade
plantados à beira de todos os caminhos do mundo,
e colecionar milagres,
e viver plenamente os instantes e detalhes desta vida
que, de tão maravilhosa, me sufoca.

 

---2006© Franklin Magalhaes--------------------------------------

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